UTI Emocional

 

Boy tem 21 anos e foi criado na “mordomia”, a mãe lhe preparou o Nescau pela manhã até o dia em que se casou e saiu de casa. Ele é um ótimo rapaz, mas têm apenas noções muito superficiais de disciplina, limites, direitos, respeito e responsabilidade. Sua maturidade está completamente “verde”, tão imaturo ele é. Adquiriu todos os valores e as crenças de sua família e acha certo fazer o que viu seus pais fazerem, e a agir como age.

Girl tem 19 anos e foi criada na “mordomia”, seus pais, “muito compreensivos”, a deixaram sempre fazer tudo o que quis. Ela é uma ótima garota, mas tem apenas noções muito superficiais de disciplina, limites, direitos, respeito e responsabilidade. Sua maturidade está completamente “verde”, tão imatura ela é. Adquiriu todos os valores e as crenças de sua família, acha certo fazer o que viu seus pais fazerem, e a agir como age.

Um dia Boy e Girl se namoraram, se engravidaram, se casaram, e tiveram um lindo menino. Brigam o tempo todo, a comunicação entre eles é na base da discussão e negociação, diálogo não existe, crianças de três anos de idade se comportariam melhor.

O fato é que estão sofrendo muito, desesperadamente, pois estão “se destruindo”, transformando suas capacidades de amar em capacidade de odiar e ressentir. As famílias com as melhores intenções e boa vontade, sofrem junto. Procuram ajudar onde e como podem, e da melhor forma que conseguem, fazem tudo tentando salvar o casamento, mas só estão colocando mais lenha numa fogueira que está ardendo a toda. A situação é gravíssima e as conseqüências serão desastrosas para todos, inclusive para o neném.

Boy parou de estudar e foi trabalhar com um tio, e Girl, após um ano e meio sem estudar (devido à gravidez e o nascimento do neném) voltou para a faculdade. Isso que parece ser algo sensato e lógico está causando múltiplos focos de incêndio no centro de em uma floresta cuja periferia arde sem parar. E o vento é forte, e a meteorologia garante que não choverá nos próximos anos.

O risco de morte deste casamento é altíssimo, é caso de UTI familiar, onde os pais, dele e dela, e o casal, Boy e Girl (só o neném fica de fora) devem ser atendidos em caráter emergencial por um terapeuta especializado até que compreendam e aceitem as mudanças que aconteceram, e as que precisam ser feitas, e se disponham a realiza-las em conjunto.

A separação agora, com as coisas como estão, deixará sequelas em todos para sempre; é o pior resultado possível, o mais caro e desgastante em todos os sentidos.

O psicoterapeuta que Girl procurou convocou toda a família para participar da busca da “solução”, mas apenas a mãe de Girl compareceu, e só consegue ver sob o seu ponto de vista. No dia seguinte compareceram Boy e seu pai, muito mais ameaçando do que avisando que, se Girl não assumir as suas responsabilidades, e não parar de estudar, de ficar se expondo para os homens da escola, o casamento vai acabar.

O terapeuta, acostumado a ser ameaçado, a ser responsabilizado, por pessoas que nem quando o circo pega fogo admitem a presença do bombeiro, apenas ouviu, e depois lamentou consigo mesmo: “que pena!”, pois esse casamento já terminou mesmo antes de existir, ele apenas ainda não foi “executado” legalmente, porque, moral, social e espiritualmente já está até enterrado.

Às vezes me pergunto: “será que essas pessoas nunca irão perceber que a vida, o viver, o ser, é algo muito sério?”.

 

Manuel Castro Lahóz – Palestrantes, escritor e Médico Psicoterapeuta , MBA (RH) e em Psicopedagogia, Trainer em PNL , Facilitador de Cursos, Consultor de Empresas na área de Excelência Pessoal. Email: [email protected]