Santa Sara Kali e Gestas

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Numa das cenas da novela “Velho Chico” da última segunda-feira, a personagem Iolanda, vivida brilhantemente pela atriz Cristiane Torloni, pede proteção invocando Santa Sara Kali, a padroeira dos ciganos.

Os relatos bíblicos citam dois perigosos ladrões que atuavam no deserto do Egito crucificados ao lado de Jesus. Curiosamente vem a mente somente o nome de Dimas e, poucos se lembram de Gestas, que é o nome do segundo crucificado.

Este singelo artigo propõe resgatar Santa Sara Kali e Gestas, dois personagens bíblicos pouco ou nada conhecidos dos cristãos.

As lendas identificam Sara como a serva de uma das três mulheres de nome Maria que estavam presentes à crucificação de Jesus. Algumas falam que ela seria serva e parteira auxiliar de Maria, e que Jesus, por esta tê-lo trazido ao mundo, teria uma alta estima por ela. Outras, que era serva de Maria Madalena.

Contudo, a lenda mais aceita, sobretudo, pelo povo francês é a que conta que Maria Madalena, Maria Jacobé, Maria Salomé, José de Arimatéia e Trofino, junto com Sara escrava, foram atirados ao mar, numa barca sem remos e sem provisões.

Desesperadas, as três Marias puseram-se a orar e a chorar. Sara então retira seu lenço da cabeça, chama por Jesus Cristo e promete que se todos se salvassem, ela seria escrava de Jesus e jamais andaria com a cabeça descoberta em sinal de respeito. Milagrosamente, a barca sem rumo atravessou o oceano e aportou com todos salvos em Petit-Rône, hoje a tão querida Saintes-Maries-de-La-Mer, no sul da França.

Por ser escrava e negra, ao aportar não foi acolhida como os outros de seu barco. Um grupo de ciganos a encontrou e ficaram penalizados, então acolheram-na. Sara cumpriu a sua promessa até o final de seus dias. Por ter operado alguns milagres entre o povo cigano, após sua morte foi cultuada como padroeira dos ciganos. A

imagem de Santa Sara fica na cripta da igreja de Saint Michel, onde estariam depositados seus ossos. Sua canonização foi em 1712 e sua festa é celebrada nos dias 24 e 25 de maio, reunindo ciganos de todo o mundo. Gestas, mau ladrão ou ladrão impenitente, foi um dos dois crucificados ao lado de Jesus. Segundo os Evangelhos, ele teria desafiado Jesus a salvar a si mesmo enquanto que Dimas, o bom ladrão, pediu perdão pelos seus pecados. Na literatura apócrifa, recebeu o nome de Gestas a primeira vez no Evangelho de Nicodemos.

Os Evangelhos contam que um dos ladrões ofendia Jesus e que outro, a partir de certo momento, O defendeu, e O reconheceu como Senhor, isto é, como Deus. São Dimas, o bom ladrão, não foi condenado à morte por ser cristão, mas por ser ladrão, e, portanto, não poderia ser considerado mártir.

No entanto, lembre-se que na Cruz, Cristo era ofendido pelo mau ladrão (Gestas) que visava com isso agradar aos judeus, e assim talvez salvar a sua vida. O bom ladrão, não assumindo a mesma atitude, mas, ao contrário, defendendo a Cristo em seu suplício, teve a chance de morrer defendendo-O, e portanto, como mártir. São Dimas não poderia ser considerado mártir.

Mas, devido à sua graça excepcional de ser crucificado ao lado de Cristo no Calvário, defendendo-O, ele é considerado mártir e modelo de martírio pela Santa Igreja. Segundo o mesmo Evangelho de Nicodemos, o mau ladrão, chamado Gestas, foi crucificado à esquerda de Jesus e o bom ladrão à sua direita. Por este motivo, com frequência as representações da crucificação mostram Jesus com a cabeça inclinada para o lado direito.

Em outro dos evangelhos apócrifos, o Protoevangelio de Santiago, José de Arimatéia profetiza a seguinte declaração, referindo-se ao mau ladrão: “Gestas, costumava dar morte de espada a alguns viandantes, enquanto a outros lhes deixava nus e pendurava às mulheres dos tornozelos cabeça abaixo para lhes cortar depois os peitos; tinha predileção por beber o sangue dos membros infantis; nunca conheceu a Deus; não obedecia às leis e vinha executando tais ações, violento como era, desde o princípio de sua vida.”

A literatura sobre os dois ladrões é muito limitada, com destaque maior a Dimas, o ladrão arrependido. Quanto a Gestas, as referências são muito escassas e sequer mencionadas pelos quatro evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João.

Como visto, se Santa Sara Kali é a padroeira dos ciganos, São Dimas é o protetor dos pobres agonizantes, sobretudo daqueles cuja conversão na última hora parece mais difícil, Gestas, perdeu a grande oportunidade de se redimir, não o fazendo, passou para a história simplesmente pelo fato de ter sido crucificado ao lado esquerdo de Jesus. Nada mais!

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