Por que eu decidi me tornar uma “doula da morte” aos 33 anos

Yahoo Vida e Estilo International

A norte-americana Evi Numen, de 33 anos, é um pouco obcecada pela morte. Ela é curadora e fundadora do Thanatography.com, um site que divulga o trabalho de artistas visuais que exploram temas relacionados à morte, ao luto e à perda. Ela costumava trabalhar no Mütter Museum, conhecido por sua coleção de esquisitices médicas e espécimes patológicos, como tumores presidenciais, cérebros de assassinos, e livros encadernados com pele humana. Recentemente ela adicionou mais uma linha ao seu currículo: ela está treinando para ser uma “doula da morte”, uma das primeiras nos Estados Unidos.

Evi tem alguns motivos para ser um pouco mórbida. Aos 20 anos ela sobreviveu a um acidente de carro que matou seu namorado. Mais cedo, naquela mesma noite, ele havia dito que iria pedi-la em casamento. Enquanto estava no hospital se recuperando de suas lesões, tomada pelo luto, ela pediu inúmeras vezes para ver o corpo de seu namorado no necrotério. “Eu precisava confrontar a morte dele para realmente acreditar nela,” diz Evi. “Meus médicos acharam que eu não poderia suportar a visão dele morto, mas até hoje eu acredito que aquilo pode ter me ajudado. Vê-lo em seu caixão durante o funeral uma semana depois parecia algo encenado e artificial.”

Em abril do ano passado, quando o pai de seu namorado falecido estava perdendo sua batalha contra o câncer, Evi se manteve ao seu lado. “Eu segurei sua mão, o ouvi, e falava com ele sempre que possível. Isso permitiu que os seus familiares fizessem pausas enquanto estavam se revezando ao lado da sua cama. O que eu não consegui fazer para o meu namorado, eu fiz pelo seu pai.”

Grande parte da ajuda oferecida por Evi foi direcionada à família. “Eu precisava lembrá-los de que eles deviam cuidar de suas próprias necessidades. Eu não podia ‘consertar’ nada, mas podia trazer comida, então eu sempre deixava algumas refeições por lá quando eles precisavam, ou ficava ao lado da cama e os encorajava a darem um pequeno passeio para que pegassem um pouco de ar puro.”

Pessoas que cuidam de familiares em estado terminal geralmente precisam “receber uma permissão” para cuidarem de si mesmos de forma apropriada.

Após a morte do pai de seu namorado, Evi sabia que havia encontrado a sua vocação. Ela fez algumas pesquisas e encontrou a International End of Life Doula Association (INELDA). “Eu soube imediatamente que aquele era o próximo passo certo,” ela conta. Fundada em cooperação com o anterior assistente social hospitalar Henry Fersko-Weiss em fevereiro de 2015, a INELDA treina pessoas para oferecerem suporte emocional aos que estão perto da morte – e aos seus familiares. Henry se inspirou no conceito das doulas que apoiam as mães e seus parceiros durante a gestação e o parto. “Eu via pessoas morrendo de maneiras muito tristes e até trágicas. Eu queria encontrar uma solução para mudar aquilo. Para mim, os princípios, o espírito e as técnicas das doulas que acompanham partos poderiam ser adaptados também para o fim da vida,” diz Henry.

Uma “doula da morte” certificada pode ajudar não apenas a pessoa que está em estado terminal, mas também seus familiares ao longo de todo o processo relacionado à morte, desde aceitar a mortalidade semanas ou até meses antes da morte em si, até lembrar e honrar a pessoa amada após a sua partida.

Evi fez o curso de 22 horas com a INELDA e tem mais de 20 horas de experiência como voluntária em duas casas de repouso em diferentes áreas. Ela foi treinada para se familiarizar com as mudanças físicas que o corpo enfrenta antes da morte – e para ajudar a confortar e aconselhar a pessoa e sua família desde o momento do diagnóstico terminal até um período que pode chegar a um ano após a morte. “Eu acho que muitos de nós tendem a querer resolver problemas e oferecer soluções para alguém que está machucado, mas não há solução para a morte,” diz Evi. “É fácil criar o hábito de dizer frases banais nestas situações, como ‘Tudo vai ficar bem,’ mas isso não é reconfortante para uma pessoa tomada pelo luto. Eu sei disso por experiência própria. Em vez de fazer isso, eu sou uma ouvinte ativa, deixando que a outra pessoa fale sobre as suas emoções conflituosas.”

Evi comenta que uma das partes mais fascinantes do seu treinamento foi aprender a reconhecer quando a pessoa está “ativamente morrendo”. “Muitos de nós sabem como funciona o nascimento — o desenvolvimento do feto, o trabalho de parto, as contrações, o rompimento da bolsa, tudo isso é relativamente conhecido no mundo ocidental. No entanto, pouquíssimas pessoas sabem como a morte chega: o apetite diminui, a pele muda de cor, a respiração soa diferente. Há uma discrepância muito grande entre as maneiras como vemos os dois extremos da vida humana. É fácil entender como esta falta de conhecimento em relação à morte pode levar ao medo.”

Evi pediu que as enfermeiras de uma casa de repouso onde ela estava trabalhando como voluntária a chamassem se precisassem de alguém para acompanhar um paciente à beira de morte, especialmente se sua família não pudesse estar presente. “Meu objetivo era estar com a pessoa que mais precisasse de mim,” ela diz. Ela foi chamada para acompanhar um homem idoso no estágio final de uma doença pulmonar. Ele não tinha familiares no local e não conseguia se comunicar. Ela foi sua única companheira em seus momentos finais e sabia, com base em seu treinamento, que ele teria apenas algumas horas de vida pela frente.

Ao longo de sete horas, Evi tocou Clint Mansell, Erik Satie, Rachmaninoff, e Chopin em seu iPad, enquanto se mantinha ao lado da cama do paciente e observava a sua respiração. “Os ciclos respiratórios dele foram ficando cada vez mais espaçados, apenas por alguns segundos, mas para mim pareciam minutos pois percebi que estava segurando o ar junto com ele,” ela conta. “Eu sabia que ele estava muito perto. Em cerca de uma hora a sua respiração ficou estável, mas estranhamente mecânica, como se fosse um reflexo e não uma ação, e de repente a próxima inspiração não veio. Eu chamei a enfermeira e ela confirmou que ele havia falecido. Foi mais tranquilo e sereno do que eu imaginava, mas a experiência me afetou mais do que eu achei que iria. Afinal, eu havia treinado, estudado, e cuidado de outras pessoas em estado terminal, mas esta foi a primeira morte que eu realmente testemunhei.”

Apesar de todo o seu preparo, Evi foi tão profundamente afetada pela experiência que teve que cancelar o seu próximo turno agendado. “Estar ao lado daquele homem, quando ninguém da sua família pôde comparecer, me afetou mais do que eu imaginava,” ela diz. “Eu não chorei – achei que não era o meu papel, como se eu fosse uma atriz substituta da família. Há uma sensação estranha de intrusão, especialmente quando estou acompanhando pessoas desconhecidas, com a qual ainda não sei lidar.” A situação também teve um impacto pessoal. “Testemunhar uma morte trouxe à tona as outras perdas da minha vida, e eu tive que honrar estas emoções antes que pudesse voltar a acompanhar outros pacientes,” explica Evi.

Testemunhar uma morte trouxe à tona as outras perdas da minha vida, e eu tive que honrar estas emoções antes que pudesse voltar a acompanhar outros pacientes.
Apesar de sua reação inesperada, ela está ainda mais comprometida do que antes com sua vocação de cuidar daqueles que estão prestes a morrer. “Não foi nojento ou assustador, mas certamente foi difícil. Toda morte vai ser diferente, e talvez com o tempo a situação se torne mais fácil ou menos estressante, mas não se tornará menos recompensadora. Mesmo que eu nunca consiga falar com os pacientes que acompanho, saber que eu trouxe algum pequeno conforto é suficiente.”

Ela também gostaria que as pessoas se sentissem mais confortáveis com o processo de envelhecimento e com a morte. Em uma cultura em que a discriminação com os mais velhos é intensa, Evi descobriu que aprender sobre o fim da vida fez com que ela se tornasse menos apreensiva em relação ao envelhecimento e à partida final. “Muitos dos pacientes com quem eu estive pouco antes da morte estavam tranquilos e em paz. Eles pareciam confortáveis e tinham um brilho especial, uma serenidade que eu não esperava ver. Ainda tenho medo da morte súbita e do sofrimento das doenças prolongadas, mas não da morte em si.”

Evi também espera que mais familiares reconheçam que uma “doula da morte” pode ser uma opção que traz um conforto enorme durante os momentos finais de uma pessoa. “É uma tentativa de recuperar o controle de um processo incontrolável,” diz ela.

Christine Colby

Be the first to comment on "Por que eu decidi me tornar uma “doula da morte” aos 33 anos"

Leave a comment

Your email address will not be published.


*