O motorista concentrado

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O fato se passou nos idos de mil e novecentos e cinqüenta. Recém mudado para uma cidadezinha do interior, ele havia comprado um carro novo. Era novo para ele, mas um carrinho já usado, com alguns probleminhas adquiridos ao longo do tempo e outros causados pelo próprio motorista…

Mas era o melhor que podia comprar e mesmo que fosse novo, a tecnologia na época ainda era muito precária. Apesar da sua habilidade como motorista, digamos assim, não ser das melhores, a sua concentração de motorista novato era ótima.

Naquela tarde de domingo saíra para passear com a esposa e o filho pequeno. Orgulhoso e ansioso para mostrar o carro para os transeuntes, demonstrar sua “perícia” ao volante para a mulher e ao mesmo tempo curtir o passeio, mesmo porque não havia muito o que fazer numa cidade daquelas, num dia daqueles e naquela época…

No meio do passeio, entre ruas de terra, jardins, cavalos, charretes e carroças, sem motivo algum como acontece com todos os casais, começou uma discussão com a mulher. E o clima esquentou: um falando mais alto que o outro!

Nosso herói, muito concentrado na direção, nem sequer olhava para o lado, prestando única e exclusivamente atenção no que via a frente. Estava agora dando voltas na praça e continuando suas colocações de marido nervoso. Nem sequer ouviu quando o filho falou, bem baixinho e muito assustado, que a mamãe tinha ido embora. Continuou colocando seus motivos em voz bem alta e ainda muito agressivo, e novamente o menino falou que a mamãe tinha ido embora. Desta vez escutou muito de longe a observação do filho, mas nem se dignou a tentar ouvi-lo. Como a coisa continuasse, o filho gritou que a mamãe tinha caído!

Agora ele escutou. E virando-se rapidamente para o banco do passageiro e não viu mais a sua esposa.
Assustadíssimo, parou o carro imediatamente e olhando pelo retrovisor divisou sua mulher estatelada no meio da rua, já bem distante e o povo começando a rodeá-la. Só então entendeu que ao fazer a curva, a porta do carro abriu e a pobre moça, sem apoio nenhum, voou para fora.

Voltou correndo para socorrê-la, levando-a para o hospital, completamente transtornado pelo acidente, chorando como criança e prometendo a ela tudo o que lhe vinha à cabeça! Mas pelo amor de Deus: que ela ficasse bem.

O amor é lindo! Depois de algum tempo, como dois pombinhos, já riam do ocorrido e parece que o acidente serviu para fortalecer mais ainda o amor e aquela união maravilhosa, próprios de um casamento com poucos anos de vida.

O fato ficou conhecido em toda a cidade, pois ele era um homem popular e nas rodas que frequentava, todos queriam saber do ocorrido, tintim por tintim, que ele pacientemente contava e recontava. Entretanto confidenciava aos amigos mais chegados:
– O que me chateia, não é o acidente em si, mas o fato de muita gente vir pedir o carro para levar a esposa passear!

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