Antigos cinemas da cidade 

 

Na década de sessenta, Catanduva contava com quatro cinemas e assistir filmes, principalmente aos sábados, era um programa quase que obrigatório.  Shopping  não fazia parte sequer do vocabulário dos cidadãos que aqui moravam e que começavam a conhecer o conceito de supermercados, sem deixar de fazer compras em armazéns pendurando a conta em cadernetas. A população não chegava a cinquenta mil habitantes e a cidade ostentava o titulo de possuir o melhor carnaval do interior(bons tempos!).

As ruas do centro eram calçadas com paralelepípedos, que ainda subsistem abaixo da camada de asfalto e os veículos dividiam espaço com carroças, que faziam carretos transportando produtos, materiais para construção e até mesmo mudanças. As opções de lazer consistiam em frequentar os clubes(Tênis e Club de Campo);  futebol aos domingos com o campeonato amador e o time profissional do Catanduva Esporte Clube(sucedido pelo Grêmio Esportivo Catanduvense em 05 de fevereiro de 1970);  nadar no desemboque, formigão, formiguinha ou cano que,  eram poções de água  formados no trecho do rio São Domingos (despoluído) entre o rio Minguta e a Rua Amazonas;  peladas pelos campos de várzea, que eram muitos;  espetáculos de circo ou parque de diversões, que se alternavam visitando a cidade e principalmente o cinema, que não sofria nenhuma concorrência da televisão, ainda incipiente à época. Assim, o cinema consistia num entretenimento indispensável  nos finais de semana,  ainda que os lançamentos tardavam aqui chegar.

Os rolos de filmes chegavam pelo trem da EFA-Estrada de Ferro Araraquara(1898 – 1968),  e o chefe da estação tinha, ao lado do juiz e promotor,  cadeira identificada e cativa em todos os cinemas. Os Cines República e Bandeirantes, os maiores da cidade com capacidade, cada um, para mais de 500 expectadores,  concorriam com filmes recém-lançados. Ambos tinham um balcão(mezanino) na parte dos fundos para aumentar a capacidade.  O República,  funcionava onde hoje é a agência do Bradesco e o Bandeirantes, na Rua Alagoas, entre Maranhão e Treze de Maio e tinha como decoração duas gravuras em alto relevo nas paredes laterais próximas à tela. De um lado,  um índio olhando para o horizonte empunhando um arco e flecha,  e do outro um coqueiro com alguns arbustos. Ambas as gravuras  coloridas se destacavam pela beleza e iluminação.

Cadeiras estofadas proporcionavam um relativo conforto sem contar a figura do baleiro, que percorria o corredor central com o seu tabuleiro de drops Dulcora, Mentex, gomas e outras guloseimas e, iniciada a película, fazia as vezes de lanterninha. Fora da área central, o Cine Central que existia onde hoje é o Edifício Residencial Higienópolis(em frente à Catedral) era o menor,  mais simples e menos confortável, pois as cadeiras(encosto e assento) eram de madeira e conservavam um pequeno selo verde e redondo na parte externa do encosto com a identificação “móveis cimo”. Este não exibia a mesma qualidade de filmes dos demais cinemas do centro e por isso sua ocupação era sempre menor. Finalmente, o Cine Tropical, na  Rua Pará – Praça 9 de Julho que,  foi o último a ser construído.

Possuía uma arquitetura moderna, ostentando na faixada do lado direito um mini jardim suspenso com destaque para a iluminação indireta. Era o mais confortável de todos e  após muitos anos de funcionamento, não resistiu à decadência do cinema e  acabou cedendo espaço para a construção do Edifício “João Alonso Garcia”. Aos sábados, dependendo do filme, a ocupação nos cinemas era quase total, com duas sessões –  a primeira começando às vinte horas. Muitos casais sedimentaram namoro trocando beijos no escurinho desses cinemas.  Aos domingos, tinha a sessão matinê com filmes para a criançada e o afluxo era grande, com pipoqueiro, carrinhos de algodão doce e outras guloseimas na porta. Filmes do Mazaropi provocavam filas enormes e ocupação total em todas as sessões.

No feriado das Sextas Feiras Santa, todos os cinemas exibiam o filme “Paixão de Cristo” e,  nas demais  sextas feiras do ano, filmes do gênero bangue-bangue na  conhecida “sessão do troco”,  que se constituía num preço único do ingresso. Filmes épicos como:  Hércules, Cleópatra, Spartacus e os clássicos da época: Dr. Jivago, Laurence da Arábia,   Bonequinha de Luxo, Romeu e Julieta, Ao Mestre com Carinho, Bonnie e Clyde, O Bebê de Rosemary, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, dentre tantos outros, atraiam milhares de pessoas e era certeza de casa cheia. A área central era muito movimentada com pessoas circulando pela praça da República(footing) e pelas calçadas adjacentes. Na Garaparia do Orestes,  apinhada de gente, pessoas buscavam espaço no balcão para comprar sorvete e caldo de cana servidos pelo Dante ou  vitamina e suco de laranja servidos pelo Eusébio, mais conhecido por Costela. Ao lado, tinha ainda o Bar e sorveteria São Pedro, Bar e sonoker do Sartori e por final o Café da Esquina que,  à noite(até por volta das 20hs) servia o irresistível e  famoso pão com linguiça.

Carros desciam a Rua Brasil e subiam a Maranhão, numa ciranda descompromissada e  inocente, mas que se constituía num programa glamoroso para os que possuíam carro(quanta ingenuidade!). Ao final de cada sessão dos cinemas, o movimento de pessoas aumentava e fazia a alegria dos bares e sorveterias. Quase ninguém ficava confinado em casa e passear no centro da cidade era um bom programa, sobretudo porque não havia risco de furto, tanto nas ruas como nas residências. Catanduva era uma cidade provinciana, mas muito gostosa de se viver e podia se orgulhar dos seus quatro cinemas que hoje não mais existem.

Os tempos são outros e o cinema em espaços menores mas com muito conforto,  transferiu o seu endereço para  os Shoppings e mesmo  para a televisão de   nossas casas, estas com telas cada vez maiores e com milhares de filmes nas prateleiras virtuais da Netflix.  Ainda assim, a cidade feitiço é muito amada, acolhedora  e aprazível, que consegue administrar bem o lirismo do seu lado provinciano com a tecnologia do mundo moderno, sendo referência em muitas áreas. Parabéns Catanduva por 100 anos de história, tradição e  juventude acumulada.

 

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