A FRUTA SEM CAROÇO

 

São 20h00 de um dia qualquer da semana do mês de agosto do ano de 1960. O locutor de voz empostada com nítido sotaque paulistano estava apresentando, como o fazia de segunda à sexta-feira à noite, programa de músicas caipira pela Rádio Piratininga, de São Paulo.

Nessa noite, especificamente, o trio “Orgulho do Brasil”, Luizinho (Luiz Raimundo), Limeira (Ivo Raimundo) e Zezinha (Carmela Bonano) (foto acima), se fazia presente no estúdio, lá permanecendo pelas duas horas de duração do programa.
A entrevista, na verdade um bate papo, teve início depois do apresentador ter enaltecido o “Roquete Pinto”, recebido pelo trio, em 1958(o mais cobiçado prêmio do rádio brasileiro). Os cantores, com a simplicidade que caracterizavam os artistas da época, relataram as aventuras de se apresentarem em circos Brasil afora (eles recebiam como cachê 50% da bilheteria), e coisas da vida pessoal de cada um.

A conversa foi permeada de músicas que foram executadas ao vivo, não obstante o trio já possuir, à época, discos gravados em 78 rotação, pela RCA-Victor e muitos outros anteriormente gravados pela dupla Luizinho e Limeira. Além dos anunciantes, o locutor lançou um concurso no ar e prometia contemplar, com um terreno em Carapicuíba (à época um biboca), o ouvinte que, através de carta, desse a resposta certa ao nome da única fruta sem caroço.

Os mais antigos devem se lembrar da Rádio Piratininga que ficou no ar por 43 anos, até fechar em 1.971. Quando surgiu em 1934, com o nome de Rádio Cruzeiro do Sul, a cidade de São Paulo tinha apenas 1.060.000 habitantes. A Rádio Difusora de Catanduva, fundada em 1.944, prefixo ZYD5, era umas de suas afiliadas. Nomes famosos passaram pela Rádio como Silvio Santos, Manuel da Nobrega (no programa Torre de Babel) Boris Casoy, Milton Neves, Salomão Esper, Tonico e Tinoco, o inesquecível Helio Ribeiro, com o Programa “O Poder da Mensagem”, com seu slogan: “Este programa aqui, é ouvido pela moça do Karmann Ghia Vermelho” (diziam que a tal moça era a catanduvense Mariluce Facci, que se tornaria Miss São Paulo, em 1968).

Uma característica da Rádio era a “Hora certa”, transmitida diretamente do Mosteiro de São Bento – e lá se ouviam as badaladas do sino. A voz era do Salomão Esper, hoje com 88 anos, mas ainda militando na Rádio Bandeirantes AM, no programa “Jornal Gente” em todas as manhãs.

Mas voltemos à entrevista com Luizinho, Limeira e Zezinha. Naquela noite, o sr. Dito e sua esposa Dona Julia, que moravam na parte dos fundos da pequena venda que possuíam na Rua Bauru (a única da Vila Sicopan, atual Jardim Bela Vista), como faziam todos os dias, estavam ouvindo o programa e se interessaram pela pergunta lançada pelo apresentador. No dia seguinte, comentaram o concurso com um menino de 10 anos de idade e calças curtas que morava nas imediações e frequentava a casa. Ávido por ganhar o prêmio, mesmo sem ter ideia onde ficava a tal Carapicuíba, o menino destacou uma folha do seu caderno de brochura e, despretensiosamente, escreveu a resposta que entendia correta. Como não possuía rádio em casa, logicamente não ouvia o programa e, por conta disso, não tinha como saber o resultado.

A boa noticia veio algum tempo decorrido através do próprio sr. Dito, confirmada dias depois por carta enviada pela Rádio. O terreno era do menino curioso, mas, para recebê-lo deveria comparecer no prazo de 15 dias na rádio, portando o documento de identidade (ainda não existia CPF, que foi lançado somente em 1968). Sem nunca ter se deslocado além dos limites da pequena Catanduva, é claro que o menino não teve como comparecer à emissora no prazo determinado e, por conta disso, deixou de receber o terreno sorteado. Apesar de verdadeira, é possível até que você não tenha gostado da história, mas seguramente ficou sabendo o que muitos desconhecem – a única fruta que não tem caroço nem semente é o abacaxi, isso em 1960. Pode ser que a resposta hoje não seja a mesma!

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