A dança continua

 

Dona Nice com certeza foi uma pessoa que viveu uma vida com leveza, dignidade, sabedoria e por completo, pois o amor sempre esteve presente em cada gesto seu, em cada pensamento.

Cliente minha por dezoito anos, sempre será uma pessoa muita querida, uma daquelas que me permite sentir prazer em clinicar. Um dia antes de partir de para Catanduva, fiz questão de ir até sua casa fazer uma visita e me despedir. Eu estava em um momento muito difícil, precisava conversar com alguém, e foi ela quem minha intuição escolheu. Fátima, sua filha estava em sua casa, com certeza se lembrará disso.

Uma mulher muito bonita, várias vezes eu lhe disse, sincera e respeitosamente, que ela me lembrava as artistas do cinema italiano dos anos sessenta. Carismática pela própria sabedoria que a simplicidade dá àqueles que são autênticos, Dona Cleonice marcou presença pelo seu jeito de ser. E sempre fez questão de prestigiar todos os eventos promovidos pela família.

Quando um cliente confia em seu médico ele se torna seu confessor, e o vice versa também é verdadeiro; as nossas consultas atendiam aos dois, e sempre ultrapassavam o horário.

Seus filhos sempre se preocupavam muito com ela e o Sr. Romeo, mas não fazem ideia do que ela se preocupava com eles. A palavra preocupar aqui não é a mais adequada, porque o que existia era ocupar a atenção, dar atenção, amar.

Quantas vezes estive em sua casa porque “o diabetes baixava muito”, como ela dizia, e assim que ela melhorava assistia uma “bronca” (aproveitando minha presença) por cima do Sr Romeu, que não respeitava os regimes “do colesterol”. Ele ria, e me oferecia um pedaço de linguiça ou o que quer que estivesse comendo, numa boa, sempre algo “proibido” por ordem médica.

Recebia muitos paparicos dos filhos e netos, mas nada se comparava aos do Sr Romeu, seu companheiro de todas as horas. Adorava pescar com ele, todas as semanas iam pescar e passavam a tarde toda juntos, pescando e conversando. Tinha um andar calmo, como se estivesse aproveitando cada passo, como se soubesse que a pressa é inimiga da perfeição.

Chamei este artigo de “A dança continua” por dois motivos; primeiro, porque fiz o diagnóstico de que Dona Cleonice apresentava insuficiência coronariana e a encaminhei para avaliação cardiológica quando ela me disse que estava muito triste aquela semana, pois havia ido ao baile e não conseguira dançar como de costume, devido a um cansaço e um aperto no peito. Sempre me lembro disso, me marcou.

E sem segundo, porque sei que ao encontrar o Sr Romeo com certeza irão dançar muito, e pescar também.

O amor que Dona Cleonice expressou e compartilhou com todos os familiares servirá para abrandar a dor da sua ausência, e tenho convicção de que a saudade será sempre um alento, pois sendo ela como foi, tudo o que vier de sua parte será terá a qualidade e a mensagem que ela transmitiu enquanto presente entre nós: alegria, conforto, paz e amor.

Foi uma vida rica, em todos os sentidos, pois nada caiu do céu, mas ampla de realizações, pois o céu sobre recompensar todos os esforços despendidos, bem como a paciência e a tolerância. Com certeza uma grande perda, que faço questão de compartilhar com meu amigo Vanderlei e todos os familiares de Dona Cleonice.

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